Não vi o debate de ontem, mas passei hoje por alguns blogs se indignaram pelo facto da ministra ter comentado que há demasiadas retenções de alunos no 2º ano.
Penso que Sra. Ministra não se se referiu a este assunto do mesmo modo que eu o vou abordar e nem quis justificar a afirmação que fez nos mesmos suportes que vou aqui apresentar. Mas, penso que seja pertinente dizer que os professores não
podem lavar as mãos do facto de haver insucesso nos alunos e, consequentemente, retenções.
Eu explico.
Não estou a querer dizer que sejamos os "culpados" dessa realidade. Sabemos que há demasiadas variáveis que de forma indirecta ou directa, influenciam a evolução do aluno: a não obrigatoriedade de frequência do jardim-de-infância, o nível cultural do meio sócio-familiar das crianças, a sua personalidade, a existência de famílias destruturadas... tudo isto são factores que, de uma maneira ou de outra, vão criar melhores ou piores condições para a aquisição das competências básicas à transição de um aluno ao 3º ano de escolaridade.
Mas agora vejamos... no processo de ensino-aprendizagem há uma outra variável que a maior parte das pessoas (e dos professores) se esquece, que é a avaliação. Uma avaliação integrada no processo de ensino-aprendizagem é meio caminho andado para o sucesso dos alunos, ou, pelo
menos, para a possibilidade de haver um maior sucesso.
E quando falo em avaliação, refiro-me principalmente à avaliação formativa, àquela que todos nós dizemos que praticamos na sala de aula mas que, no fundo, quase nunca é aplicada ou então, de uma forma tão ténue que nem se dá por ela.
E o que é isso de avaliação formativa?
(perdoem-me, mas vou usar parte dos meus escritos da tese de mestrado)A avaliação realmente formativa destaca-se por ser uma avaliação formativa de inspiração cognitivista. Há uma concepção ampla dos vários domínios do currículo, havendo um foco predominante nos processos cognitivos dos alunos, como a metacognição, a auto-regulação, a auto-avaliação e o auto-controlo e nos procedimentos, como as tarefas e o feedback. Consequentemente, é uma avaliação que possui critérios bem definidos e onde o envolvimento dos alunos é crucial (Gipps e Stobart, 2003; Fernandes, 2005). Pode-se concluir que este tipo de avaliação envolve directamente ambos os actores no processo de ensino-aprendizagem-avaliação. Por um lado, o papel do professor é crucial na medida em que deve seleccionar as tarefas mais adequadas e fornecer um feedback de boa qualidade, por outro lado, os alunos também possuem um papel importante pois têm a possibilidade de regular as suas aprendizagens. Há uma interacção e articulação entre estes actores e os procedimentos de cada um deles, tornando esta avaliação numa avaliação dinâmica, funcional, colaborativa, contextualizada e reguladora. É uma avaliação que contrasta com a avaliação sumativa não só por todas estas características enunciadas mas também pelo facto do professor não ser o único actor/participante do processo avaliativo e partilhar responsabilidades com os seus alunos.A meu ver há assim três factores-chave para a implementação da avaliação formativa alternativa nas salas de aula: a selecção de tarefas e o feedback, por parte do professor e a regulação das aprendizagens, por parte dos alunos. Como acima referi, são processos interligados e que dependem em maior ou menor grau uns dos outros e parece-me que falhando um destes factores, não se pode afirmar a existência plena de avaliação alternativa.E o que quero eu dizer com isto?
Que mudar as práticas de avaliação é dar um passo de gigante no sentido do sucesso dos alunos. É proporcionar-lhes melhores condições para o sucesso, é garantir a igualdade de oportunidades para todos os alunos.
Claro que vão existir sempre retenções, haverá sempre alunos que não terão as competências esperadas para a sua transição ao ano seguinte. De qualquer forma, a responsabilidade que nos cabe a nós, professores, não deve ser esquecida e mudar as práticas de avaliação é algo que só está ao nosso alcance. Não está ao alcance de Ministros ou Secretários de Estado da Educação, é um trabalho de sala de aula, realizável com os recursos que possuímos, com a vontade em mudar para melhor, para bem dos alunos.
Parece utópico? Não é, acreditem.
[E quem estiver interessado em saber mais, leia
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